Uma enxurrada de revelações após a divulgação dos arquivos
Desde janeiro, milhões de páginas relacionadas ao caso deJeffrey Epsteinforam tornados públicos. Novos detalhes continuam a surgir e muitos são profundamente perturbadores.
Investigações recentes, incluindo entrevistas com vítimas, apontam para um agente de modelos francês que supostamente trabalhou em estreita colaboração com Epstein. Sob o pretexto de oferecer oportunidades de modelo, ele recrutou meninas da América do Sul. Ele prometeu vistos e carreiras nos Estados Unidos. Na realidade, muitos foram entregues diretamente na órbita de Epstein.

Por trás da imagem polida da indústria da moda, ele é acusado de explorar a ambição e de transformar sonhos em um canal de abusos.
Um agente veterano com uma reputação sombria
Jean Luc Brunel, nascido em 1946, era um conhecido agente de modelos e olheiro francês. Ele trabalhou com grandes agências e mais tarde fundou sua própria empresa. Ao longo dos anos, ele esteve associado ao lançamento ou promoção de figuras de destaque, comoChristy Turlington,Milla Jovovich, eSharon Pedra.
Rumores sobre o comportamento de Brunel circularam já no final da década de 1980. Alguns membros da indústria o acusaram de drogar e agredir modelos. Apesar disso, sua carreira continuou a crescer, expandindo-se da França para os Estados Unidos.
Através do associado de EpsteinGhislaine Maxwell, Brunel conheceu Epstein. No final da década de 1990, os dois desenvolveram um relacionamento próximo.

Em 2005, Brunel lançou o MC2 Model Management em Miami. Epstein teria apoiado financeiramente a empresa, fornecendo uma grande linha de crédito. Entre 2000 e 2005, Brunel voou dezenas de vezes no jato particular de Epstein. A conexão deles durou anos.
Mesmo durante a prisão de Epstein em 2008, Brunel visitou-o repetidamente. Mais tarde, em 2015, Brunel processou Epstein, alegando que o escândalo prejudicou o seu negócio.
Após a prisão de Epstein em 2019, documentos judiciais trouxeram novas acusações. VítimaVirgínia Giuffrealegou que ela foi forçada a ter encontros com Brunel quando era menor de idade. Ela também afirmou que o “reconhecimento de jovens modelos” foi usado como disfarce para a exploração.
Brunel negou todas as acusações. No entanto, ele foi posteriormente preso na França em 2020 sob acusações que incluíam estupro e tráfico. Antes do início do seu julgamento, ele morreu por suicídio na prisão em 2022. Muitas vítimas nunca viram justiça.
Uma fuga estreita: a história de uma garota

Anos mais tarde, testemunhos revelam quão perto alguns chegaram do perigo.
Em 2004, uma brasileira de 16 anos chamada Gláucia Fekete entrou no mundo da moda. Brunel visitou sua casa rural e convenceu sua mãe a permitir que ela viajasse ao Equador para um concurso de modelos.
No início, sua mãe ficou desconfiada. Mas Brunel foi convincente e a viagem foi aprovada.
Na competição, que contou com meninas de 15 a 19 anos, tudo parecia legítimo. No entanto, havia detalhes perturbadores. Brunel desencorajou a comunicação com as famílias. Ele parecia se concentrar especialmente em competidores muito jovens.
Outro participante lembrou mais tarde que Brunel se comportou de maneira estranha. Ele passava a maior parte do tempo com jovens brasileiras e parecia exercer controle sobre suas finanças.
Ao final do evento, Brunel se ofereceu para patrocinar a viagem de Fekete a Nova York para trabalhar como modelo. Desta vez, sua mãe recusou. Ela sentiu que algo estava errado e cortou todo contato.
Essa decisão provavelmente salvou sua filha.

Registros posteriores mostraram que Epstein estava no Equador na mesma época da competição. Os registros de voo também indicaram que pelo menos um modelo menor de idade viajou em seu avião naquele ano.
Olhando para trás, Fekete acredita que escapou por pouco de um destino muito mais sombrio.
Uma vítima que não teve tanta sorte

Outra brasileira, identificada como “Anna”, contou uma história bem diferente.
Ela se mudou para São Paulo após receber a promessa de oportunidades de modelo. Em vez disso, seus documentos foram levados e ela foi informada de que devia dinheiro para viagens e fotos. Ela rapidamente percebeu que estava presa.
Ela foi forçada à prostituição. Entre seus clientes, disse ela, estava Epstein.
Pouco depois de completar dezoito anos, ela foi levada para conhecê-lo em um ambiente luxuoso. Ele a selecionou entre um grupo de garotas. Dias depois, ela foi apresentada a ele novamente em uma festa, onde também conheceu Brunel.
Epstein providenciou para que ela viajasse ao exterior, incluindo viagens à França e aos Estados Unidos. Ele apresentou a situação como uma oportunidade de modelo. A agência de Brunel cuidou dos vistos.
Mais tarde, Anna mostrou aos repórteres um visto dos EUA vinculado à empresa de Brunel. Ela disse que nunca trabalhou como modelo. O visto existia apenas para facilitar a viagem para conhecer Epstein.
Ao longo de vários meses, ela viajou com ele várias vezes. No início, ela acreditou que era especial para ele. Eventualmente, ela percebeu que ele tratava muitas meninas da mesma maneira.
Ela descreveu o comportamento dele como controlador, mas calculado. Ele deu-lhe dinheiro, pagou as aulas e testou sua confiança.
A certa altura, ele teria dito a ela que Brunel queria ter acesso a ela, mas foi recusado. Isso a deixou aliviada e profundamente perturbada.
Eventualmente, depois que surgiram questões de visto, Anna voltou ao Brasil e cortou relações. Essa decisão permitiu que ela escapasse.
Uma rede sob investigação

Em fevereiro, o Ministério Público Federal brasileiro iniciou uma investigação para saber se uma rede de recrutamento ligada a Epstein operava no país.
As autoridades pretendem compreender como as jovens foram abordadas, transportadas e controladas. As autoridades acreditam que as ações podem ser qualificadas como tráfico de seres humanos para exploração sexual, um crime que pode não estar sujeito a prazos.
Os testemunhos sugerem que recrutadores, agentes e intermediários trabalharam juntos além-fronteiras. Algumas vítimas foram visadas especificamente devido à sua vulnerabilidade e ambições.
Um sistema baseado em sonhos

Anos depois, os sobreviventes ainda estão tentando entender o que aconteceu com eles.
Alguns, como Fekete, foram protegidos pelo acaso e pela intervenção familiar. Outros, como Anna, foram arrastados para um sistema que confundiu a linha entre oportunidade e exploração.
Em sua essência, a história revela quão facilmente os sonhos podem ser manipulados. A promessa de se tornar modelo, viajar para o exterior ou construir uma nova vida foi usada como alavanca.
Para os envolvidos, as consequências foram uma mudança de vida.
E para muitas vítimas, a verdade completa está apenas começando a emergir.